Jornalismo
Sacos plásticos viram cobertores para quem vive nas ruas do Centro do Recife
Cena tem sido notada nas calçadas da capital pernambucana. Prática é considerada perigosa devido ao risco de sufocamento
Por Wagner Oliveira05 SET - 15H35
Jornalismo - Sacos plásticos viram cobertores para quem vive nas ruas do Centro do Recife (Foto: Fotos: Genival Paparazzi)Sacos plásticos estão sendo usados para aquecer o frio de quem dorme nas ruas do Centro do Recife. Além dos lençóis velhos e dos pedaços de papelão, agora, a população em situação de rua da capital pernambucana tem descansado “embalada” em plásticos transparentes ou até mesmo em sacos pretos. A cena, que parece não ser notada pelo poder público, preocupa e angustia quem passa com olhar mais atento. Mas não é só isso. Médicos alertam para o risco de sufocamento.
A Avenida Conde da Boa Vista, um dos principais corredores de ônibus do Recife, e que já abrigou inúmeros comércios tradicionais nas décadas passadas, é um dos pontos onde mais podem ser encontradas pessoas em situação de rua atualmente. Elas ocupam os bancos das paradas de coletivos, calçadas de lojas e as portas das instituições bancárias. Estão lá em quase todos os horários e todos os dias.
São homens e mulheres, jovens e idosos, que passam dia e noite à espera do que o destino lhes dará. O flanelinha Manoel Ribeiro é uma dessas pessoas. Ele trabalha tomando conta de carros estacionados na Rua da Aurora, na área central do Recife. Para dormir, coloca papelões na calçada do mesmo endereço e “veste” um saco grande e transparente para escapar do frio. O registro dele dormindo foi feito pelo fotógrafo Genival Paparazzi, que mora no Centro do Recife.
Assim como Manoel, outras dezenas de pessoas em situação de rua estão fazendo o mesmo. “Como eles não recebem lençóis, estão se virando como podem. Muitos dormem em sacos plásticos”, alerta Paparazzi. Quem tem a sorte de ganhar um lençol para se cobrir, ou quem não tem os seus cobertores furtados ou roubados, consegue descansar pelo menos coberto com algo que possa aquecer o corpo sem oferecer riscos de sufocamento.
E quando falo em descansar é porque não há como dormir uma noite inteira e tranquila de sono nessas condições. A vida na rua não é fácil. Chuva, frio, barulho e a violência são os principais companheiros de quem não tem um teto para morar ou de quem não consegue ou rejeita se abrigar em espaços oferecidos pelo poder público.
De acordo com o levantamento feito pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais, Recife tinha, até o final de dezembro de 2024, 3.572 pessoas vivendo em situação de rua. A quantidade cresce a cada ano. Até dezembro de 2023, havia 2.697 pessoas vivendo nas ruas, segundo o mesmo estudo. Os dados foram coletados a partir do CadÚnico, do Governo Federal.

Aos 47 anos, Emerson João Mendes faz parte dessa estatística. Atualmente, ele passa as noites em frente ao Teatro de Santa Isabel, no bairro de Santo Antônio, ao lado do Palácio do Campo das Princesas, sede do Governo do Estado. No dia em que conversamos, por volta das 7h, ele havia acabado de acordar após ter dormido ao lado de outras quatro pessoas. Ele se cobria com um lençol.
“Não é bom e não é fácil dormir na rua. Primeiro, a gente nem dorme direito. Temos que ficar sempre atentos. Além de ser ruim por estarmos no chão é muito perigoso. Já fui roubado algumas vezes. Até tinha conseguido uma vaga num dos abrigos do Recife, mas acabei saindo porque disseram que eu estava usando drogas, mas era efeito dos remédios que eu estava tomando”, conta Emerson.
Na Avenida Guararapes, que em décadas passadas ostentava um sem número de escritórios, consultórios e empresas em seus prédios pomposos, há um grande número de pessoas em situação de rua nos dias atuais. É na calçada do prédio dos Correios, que fica na esquina com a Rua do Sol, onde dorme muita gente sem lar e sem abrigo. “Passo por aqui indo para o trabalho e fico triste vendo essa situação”, declarou uma vendedora.
As estações de BRTs também são utilizadas por quem não tem onde dormir. Já enquanto os comércios do Centro não abrem suas portas, parte da população de rua também aproveita seus últimos momentos de sono. No início desta semana, por volta das 6h30, pelo menos dez pessoas ainda dormiam na calçada de uma loja que comercializa calçados na esquina das avenidas Dantas Barreto e Nossa Senhora do Carmo.
O número do último censo da população de rua realizado pela Prefeitura do Recife, em 2023, apontou que havia 1.806 pessoas em situação de rua na cidade. Mas da metade desse total estava nessa situação havia pelo menos três anos. O levantamento apontou que 80% dessas pessoas são negras e 76% delas são do sexo masculino. Além disso, 22% afirmaram não saber ler nem escrever.
Mas, além de serem “invisíveis”, as pessoas em situação de rua também sofrem violência. Agressões, sobretudo com armas brancas, furtos, roubos e estupros são frequentes. Somente entre os anos de 2020 a 2024, 46.865 casos de violência contra a população em situação de rua foram denunciados no Brasil através do Disque 100.
Recife, aparece na oitava colocação nesse ranking de violência.Foram registrados 813 casos de violências em um período de quatro anos. As agressões acontecem, em sua maioria, nas ruas, mas também há casos ocorridos em abrigos públicos. Entre as cidades mais violentas para a população em situação de rua estão: São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte, Manaus, Salvador e Fortaleza.
Calçadão de Boa Viagem também virou dormitório
Ter pessoas em situação de rua dormindo e morando nas calçadas não é “privilégio” apenas do Centro do Recife. Na Zona Sul da capital, o bairro de Boa Viagem também transformou-se em dormitório para quem não tem um teto. Várias ruas e avenidas, assim como a beira do canal que corta o bairro, estão lotadas de gente. Gente que espera por dias melhores. Gente que espera pela ajuda da gente para se alimentar e seguir a vida.
Um dos endereços mais caros do bairro e da cidade, a Avenida Boa Viagem, famoso cartão-postal da capital do frevo, também abriga seus moradores sazonais. Quem costuma caminhar ou correr no calçadão ou até mesmo dar um mergulho nas águas do mar de Boa Viagem nas primeiras horas da manhã já viu pessoas em situação de rua dormindo sob ou sobre os bancos ou ainda encostadas aos quiosques do calçadão.
Assim como a população em situação de rua do Centro do Recife, as pessoas que dormem nas calçadas da Avenida Boa Viagem não são “notadas” por muita gente. “Eu vejo essa situação e tenho pena. Mas também fico com receio de ajudar porque muita gente usa o dinheiro que ganha para beber e usar drogas enquanto a família precisa de comida”, desabafa uma moradora do bairro.




Dormir ao lado de um dos 60 quiosques instalados ao longo das praias do Pina e Boa Viagem oferece certa proteção a quem não tem onde dormir. Mas a situação não agrada os trabalhadores e comerciantes da orla. “É uma situação complicada, pois alguns deles aproveitam para arrombar os quiosques. E pior, tem gente que tem onde morar e prefere dormir no meio da rua”, relata um comerciante que pediu reserva da sua identidade.
Médico alerta para risco de sufocamento
Além dos perigos da violência urbana, as pessoas em situação de rua que estão nas calçadas do Recife e usam sacos plásticos como cobertores ainda correm outro risco. O de sofrerem sufocamento. A cena que tem se tornado cada vez mais comum no Centro do Recife pode parecer simples, mas é perigosa. Quem faz o alerta é Filipe Prohaska, médico infectologista da Universidade de Pernambuco (UPE).
“O uso de sacos plásticos como cobertores causa um risco grande de sufocamento. A pessoa que se cobre com esse tipo de material corre o risco de, ao inspirar e expirar, fechar o ambiente e causar uma morte por sufocamento. Além disso, também há a possibilidade de concentrar gases nocivos”, pondera Prohaska.
O infectologista aponta também que o contato com sacos plásticos traz risco de doenças. “Isso pode causar dermatites de contato, gerar inflamações no corpo e até servir como foco de infecções. Mesmo que a pessoa utilize o plástico apenas uma única vez, o risco existe. O ideal é que essas pessoas não façam uso de sacos plásticos de jeito nenhum. Elas precisam ser acolhidas e protegidas para não enfrentarem o frio nas ruas”, destaca o médico.
A vida nas ruas também está acompanhada ou é consequência de doenças mentais. Depressão, dependência de álcool ou drogas e esquizofrenia são alguns desses exemplos. Segundo especialistas em saúde mental, levantamentos mostram que o transtorno mental é uma das principais causas que levam as pessoas a morarem nas ruas.
O psiquiatra paulista Daniel Barros compartilhou vídeo em seu canal do youtube falando sobre o assunto. “Os conflitos familiares e o desemprego levam muita gente às ruas, mas os transtornos mentais também têm sido apontados como uma das principais causas do aumento da população de rua. As pessoas em situação de rua sofrem um desgaste psicológico e emocional muito grande. Elas precisam muito de ajuda”, pondera.
Prefeitura oferece acolhimento em 21 unidades
Procurada pela reportagem para falar sobre as ações desenvolvidas para atender à população em situação de rua, a Prefeitura do Recife informou como funciona a rede de atendimento municipal. A Secretaria de Assistência Social e Combate à Fome do Recife destaca que faz abordagens sociais diárias em vários bairros da cidade, incluindo o Centro do Recife, através do Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS).
Nessas ações, segundo a gestão municipal, são ofertados acolhimento institucional, serviços de saúde, acesso à documentação civil e inclusão em programas sociais. A prefeitura ressalta, no entanto, que a adesão não é obrigatória por parte da população, que tem o direito de ir e vir garantido pela Constituição.
A Secretaria de Assistência Social diz ainda que disponibiliza 21 serviços de acolhimento para a população recifense, que estão distribuídos em 20 unidades na cidade. No total, são oferecidas mais de 700 vagas destinadas a diferentes públicos em situação de vulnerabilidade social, atendendo, na maior parte dos casos, pessoas em situação de rua.
Entre os serviços, há seis unidades voltadas para crianças e adolescentes, quatro para adultos e famílias, três para pessoas idosas, uma unidade específica para a população LGBTQIA+, dois Hotéis Sociais, três abrigos emergenciais e um abrigo noturno específico para a população em situação de rua. Além dessas, o município também mantém o Serviço Família Acolhedora, que oferece até 15 vagas para crianças e adolescentes em situação de risco.
O acesso às vagas ocorre por meio do atendimento nos Centros POPs, do SEAS ou da articulação com a rede de atendimento, principalmente a saúde. Com a chegada do inverno e a queda nas temperaturas, as pessoas têm sido encaminhadas, conforme o perfil e disponibilidade, para a rede de acolhimento 24h, em hotéis sociais ou no abrigo noturno.
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