Jornalismo
"O São João virou um festival": Cristina Amaral critica a descaracterização da festa junina
Confira a entrevista exclusiva com a forrozeira:
Por Abel Santos12 JUN - 14H55
Jornalismo - "O São João virou um festival": Cristina Amaral critica a descaracterização da festa junina (Foto: Reprodução/Redes Sociais)O São João no Nordeste atravessa uma mudança significativa em seu formato e programação. O que antes era uma celebração centrada na raiz do forró, hoje divide espaço – e palcos – com diversos outros ritmos, gerando um debate intenso sobre a preservação cultural. Em entrevista exclusiva, a cantora e compositora pernambucana Cristina Amaral, ícone da nossa música e defensora do forró tradicional, abre o jogo sobre o atual cenário dos festejos juninos, o papel da mídia na imposição de novos ritmos e a luta das mulheres para ocupar seu espaço no gênero.
Cristina, você é uma referência da nossa cultura. Como você enxerga a "modernização" do São João e a presença massiva de ritmos que não são tradicionais da festa, como o axé e o funk?
Cristina Amaral: Eu sou uma das vítimas dessas situações. Sinto falta do forró de verdade; o que aconteceu é que o nosso São João tornou-se um festival junino. As coisas estão mudando de forma muito brusca e, às vezes, desrespeitosa com a nossa própria arte. Precisamos fortalecer o forró nos palcos e dar mais espaço para artistas que carregam essa bandeira, como Jorge Altinho, Flávio José, Santana e tantos outros.
Você mencionou que o forró era historicamente dominado por homens. Como foi sua trajetória enfrentando esse preconceito?
Cristina Amaral: Sofri preconceito, sim, principalmente na época dos bailes, onde os componentes eram todos homens. As pessoas de fora não entendiam, havia uma discriminação. E sobre o machismo, ele existe em tudo. Se a Elba Ramalho sofreu, imagine Marinês, que veio antes dela e foi uma guerreira resistente. Hoje, eu ainda reclamo com os colegas artistas: quando fazem um projeto, convidam só homens. É preciso unir mais as mulheres.
Sobre a nova geração de artistas, como João Gomes e outros que transitam entre piseiro, sertanejo e forró, como você analisa esse fenômeno?
Cristina Amaral: A mudança é natural, tudo se transforma. Eu gosto do João Gomes, ele traz um pouco da nossa raiz e tem o pé no chão. O problema não são os artistas, mas o mercado e os empresários que, impulsionados pela mídia e redes sociais, esquecem a nossa cultura para valorizar o que vem de fora. Isso toma o espaço de quem faz um trabalho tradicional, e é isso que eu não concordo.
Para finalizar, como surgiu o seu projeto "Forró na Sua Casa"?
Cristina Amaral: A ideia veio do contato com o público. Muitos fãs diziam que queriam ver meu show, mas não podiam sair de casa por cuidarem de pais doentes ou filhos pequenos. Então, eu quis levar a minha música até essas pessoas. É emocionante ver o poder do forró, como ele contagia e traz alegria, dopamina mesmo, para quem está em casa. É uma forma de manter a nossa chama viva.
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