Jornalismo
Mulher trans autista e periférica vence barreiras e é aprovada em medicina na UFPE
Com apoio da família e professores, estudante superou o preconceito e conquistou vaga em um dos cursos mais concorridos do país
Por Yasmin Santos11 FEV - 16H38
Jornalismo - Mulher trans autista e periférica vence barreiras e é aprovada em medicina na UFPE (Foto: Reprodução)Mulher trans, periférica e autista. Rótulos que ela carrega com orgulho, mas que muitas vezes serviram de combustível para o preconceito. Na contramão das estatísticas e das expectativas impostas por uma sociedade que insiste em limitar trajetórias, ela transformou obstáculos em motivação e conquistou uma vaga no curso de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), um dos mais concorridos do Brasil.
A aprovação é resultado de uma caminhada marcada por persistência. Foram cinco anos de preparação, tentativas frustradas e recomeços. “Eu confesso que foi um processo que talvez uma parte de mim nem acreditava mais que fosse possível, mas mesmo assim, graças ao apoio de professores e das pessoas ao meu lado, continuei acreditando”, conta.
A rotina era intensa. Em um cômodo simples da casa onde mora com a família, ela passava horas isolada, mergulhada nos livros. A dedicação extrema preocupava a mãe, dona Éla, que muitas vezes precisava intervir para lembrar a filha de se alimentar ou descansar. “Era preocupante, porque ela se dedicava muito, passava da hora de comer, de beber água. Quando eu ia interferir, às vezes entrávamos em conflito. Até marquei psicóloga para conversar com ela”, relembra.
Apesar de não ser a primeira mulher trans aprovada em Medicina na UFPE, ela integra um grupo ainda muito pequeno que consegue acessar o ensino superior em cursos de alta concorrência. Dados de organizações sociais apontam que a exclusão ainda é uma realidade: grande parte da população trans enfrenta evasão escolar e dificuldades de inserção no mercado formal de trabalho.
Ela iniciou o processo de transição de gênero em 2022, mas afirma que, desde a infância, já se sentia deslocada das expectativas impostas. “Eu lembro da escola dividindo meninos e meninas, e eu não queria ir para o lado dos meninos. Para mim era normal, mas para outras pessoas era um problema”, relata.
Ciente das estatísticas que apontam a marginalização de pessoas trans no Brasil, ela reconhece que trilhar um caminho acadêmico é, também, um ato de resistência. “Muitas vezes esperam que a gente ocupe determinados espaços. Quando a gente foge disso, causa estranhamento”, afirma.
O apoio familiar foi decisivo. A mãe admite que, no início, enfrentou dúvidas e inseguranças, mas escolheu o amor como norte. “Eu não entendia tudo, mas entendia que precisava amar. Como é que eu digo que amo a Deus se não amo minha filha?”, diz.
Para a nova estudante de Medicina, a conquista vai além da aprovação. Representa permanência, resistência e a certeza de que não desistir foi o maior ato de coragem. “Não desistam. Foram cinco anos estudando. Ainda bem que eu não desisti. Minha vitória hoje é prova disso.”
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