Jornalismo
Livres do machismo: a vida começa quando a violência acaba
Mulheres que sofreram agressões recomeçam suas caminhadas com o apoio de núcleo da Defensoria Pública de Pernambuco
Por Wagner Oliveira e Leandro Mendes01 DEZ - 15H45
Jornalismo - Livres do machismo: a vida começa quando a violência acaba (Foto: )Cada mulher que chega ao Núcleo Especializado de Defesa da Mulher Vítima de Violência Doméstica e Familiar (Nudem) da Defensoria Pública de Pernambuco traz uma história que faz questão de esquecer. Elas foram vítimas de violência doméstica e abusos por parte dos companheiros durante anos. Daqueles que deveriam protegê-las e cuidá-las, essas mulheres só receberam agressões e maus-tratos.
Com a técnica de enfermagem Kely Ribeiro, 36 anos, não foi diferente. Depois de 14 anos sofrendo em um relacionamento abusivo, ela decidiu virar a chave e dar um novo rumo para a vida dela e dos dois filhos que teve com o companheiro que a agredia. “Eu passei por toda espécie de violência dentro desse relacionamento. Casei acreditando que viveria um sonho de princesa, mas foi tudo muito diferente”, conta.
Para dar um novo sentido à vida de mulheres como Kely, foi criado, em dezembro de 2021, um núcleo que pudesse acolher e ajudar a quem buscava romper esse ciclo de sofrimento. Desde a criação, o Nudem atendeu aproximadamente 27.100 mulheres em situação de violência de gênero. Somente neste ano, 12.662 vítimas de agressões já buscaram ajuda no núcleo.
Quem está à frente do Núcleo Especializado de Defesa da Mulher Vítima de Violência Doméstica e Familiar é a defensora pública Débora Andrade. O Nudem é responsável, além de todo acolhimento psicológico, pelo atendimento jurídico especializado de mulheres em situação de violência coordenando a atuação das defensoras públicas nas Varas de Violência Doméstica Familiar do Recife.
Além do atendimento realizado no Recife, a atuação dos profissionais que fazem parte do Nudem também chega a todo estado de Pernambuco por meio do oferecimento de suporte técnico e orientação temática às (aos) defensoras (es) públicas (os) que atendem vítimas de violência doméstica em todos os outros 183 municípios do estado e ainda no Arquipélago de Fernando de Noronha.
“O núcleo está preparado para receber e acolher essas mulheres em situação de violência da melhor maneira possível. O Nudem exerce a função de assistência qualificada à vítima conforme previsto nos artigos 27 e 28 da Lei Maria da Penha, atuando na formulação e acompanhamento das ações penais decorrentes da violência. Além disso, o núcleo propõe ações cíveis de caráter urgente”, explica a defensora Débora Andrade.
Para assegurar proteção integral às vítimas, o Nudem protocola pedidos iniciais de ações de família envolvendo o agressor, quando essas medidas são necessárias para a segurança da mulher, como guarda de filhos, alimentos, regulamentação de convivência e dissolução de união estável, buscando garantir prioridade no trâmite dessas demandas.
“Além disso, realizamos o acompanhamento processual das mulheres que residem no Recife ou que tenham processos de medidas protetivas em tramitação na comarca da capital. Também propomos a abertura de queixa-crime contra o agressor ou agressora quando essa for a vontade da vítima”, ressalta Débora, que coordena o Nudem desde julho de 2023.

Após uma sequência de violências, a assistente de departamento pessoal Wanessa Melo, 33 anos, também buscou ajuda da Defensoria Pública de Pernambuco. “Depois que sofri um abuso há sete anos, mudei para Alagoas para recomeçar a vida. Lá, me relacionei com um homem que me agredia depois que eu descobri que ele usava drogas e não quis mais manter o relacionamento. Voltei para o Recife, entrei em outro relacionamento e também fui agredida”, revelou Wanessa.
la conta que passou um ano da sua vida no fundo do poço e decidiu procurar ajuda. “Através de um defensor público que precisei para um processo eu conheci o Nudem. Tive o apoio da Dra. Viviane, que é psicóloga, juntamente com a Dra. Débora. Em seis meses eu já era outra pessoa. Estudei, passei no Enem e agora estou cursando direito e trabalhando. Estou muito feliz”, comemora.
O recomeço após 14 anos de violências
Agressões físicas durante a primeira gestação e violência psicológica na segunda gravidez foram apenas alguns dos episódios de terror vividos pela técnica de enfermagem Kely Ribeiro. Criada na igreja, a menina religiosa foi ensinada que casamento era para sempre e que o amor deveria suportar tudo, como diz um trecho da Bíblia. Depois de 14 anos sofrendo, Kely não suportou mais e gritou por ajuda.
“Vivi uma experiência muito ruim na esperança e ilusão de que meu agressor iria mudar. Achava que ele iria parar de bater e deixar de me trair. Mas nada mudava. Eu não recebi nenhum conselho para sair dessa situação. Só me diziam para eu continuar lutando, e as coisas só pioravam. Passei por violência física, psicológica, patrimonial, por todas elas, sem exceção”, lembra.
A técnica de enfermagem conta que ela e os filhos sempre ficavam apreensivos com a volta do ex-marido para casa. “Além da assistência dele com as crianças ser péssima, ele sempre chegava em casa bêbado e destruindo tudo. Algumas vezes ele urinava e vomitava em cima da única cama que havia pra gente dormir. Parecia que ele chegava endemoniado, eram momentos de pânico”, revela Kely.
Depois de anos de violência doméstica, Kely conta que resolveu dar um basta nesse ciclo no dia em que o ex-marido agrediu também o filho. “Ele tentou contra a vida do meu filho. Eu tomei coragem e o denunciei. Um oficial de Justiça acompanhado de dois policiais militares foram tirar ele de dentro de casa. A partir daquele dia, eu decidi que não sentiria mais essa dor”, conta.
Há um ano e meio, a técnica de enfermagem e os filhos seguem em nova vida. Todos estão fazendo terapias e Kely segue sendo assistida pela equipe do Nudem. “Eu estava jogando minha vida no lixo, eu iria morrer, mas agora sou outra pessoa depois do Nudem. O pessoal do núcleo faz um trabalho excelente e precisa chegar ao maior número possível de mulheres, porque é um divisor de águas nas nossas vidas”, elogia.
Núcleo também proporciona diversão
Além de todo apoio jurídico e psicológico que o Nudem oferece às mulheres que buscam assistência, também há espaço para momentos de lazer e entretenimento. O núcleo conta, desde abril de 2024, com uma equipe multidisciplinar composta por profissionais de psicologia, pedagogia, serviço social e da área jurídica. Esse grupo também organiza reuniões e passeios com essas mulheres.
O passeio mais recente, realizado no mês de novembro, levou as assistidas pelo Núcleo Especializado de Defesa da Mulher Vítima de Violência Doméstica e Familiar para uma visita institucional ao Centro Cultural Cais do Sertão, no Bairro do Recife. Cerca de 40 participantes acompanhadas pela equipe técnica do núcleo conheceram um pouco mais sobre o local e a cultura do estado.
Wanessa Melo guarda na memória com carinho o dia em que fez um passeio ao lado de outras mulheres assistidas pelo Nudem. “Outro dia fomos até o Instituto Ricardo Brennand, fui com minha mãe. Foi maravilhoso. Elas sempre nos incluem em eventos e passeios. Essa interação entre nós sobreviventes da violência nos dá outro norte, traz um afago maior”, pontua a assistente de departamento pessoal.
Kely Ribeiro também gosta dos momentos de lazer em grupo. “Os passeios são maravilhosos, faz a gente construir laços e criar vínculos de amizades onde uma fortalece a outra. Estamos nos organizando para nossa confraternização. Isso mostra que a gente não está só no mundo. Prova que a gente consegue passar por esse vendaval e acreditar que existe um mundo novo”, ensina.
O Nudem funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, na Av. Manoel Borba, nº 640, no bairro da Boa Vista, no Recife. O acesso é por livre demanda e não precisa agendar. Esse atendimento é feito de forma individualizada, em sala reservada, para garantir privacidade e sigilo. Também há atendimento virtual através do número de WhatsApp (81) 99488-3765 para demandas simples e orientações iniciais.



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