Jornalismo
Espanha vence a Copa, mas o futebol perde para o desrespeito e a intolerância
Edição de 2026 ficará marcada por episódios de racismo, violência, interferência política e atitudes que envergonharam o esporte
Por José Gustavo20 JUL. - 11H56
Jornalismo - Espanha vence a Copa, mas o futebol perde para o desrespeito e a intolerância (Foto: Reprodução Internet)A Copa do Mundo de 2026 terminou. Com ela, grandes histórias e a consagração de uma Espanha que fez do futebol a sua melhor propaganda. Mas também ficaram cicatrizes. Algumas delas profundas.
Desde a abertura do Mundial, ficou evidente que esta seria uma Copa em que o extracampo insistiria em disputar espaço com a bola. Um péssimo sinal. Este também foi o Mundial da intolerância, do racismo e da catimba em excesso. A Copa do Desrespeito! O exemplo maior veio na final deste domingo (19).
Enquanto os espanhóis celebravam, com todo o direito, o seu bicampeonato mundial, jogadores argentinos recusaram-se a participar daquele momento de reverência aos campeões. Viraram as costas para o palco, para os adversários e, principalmente, para um dos valores mais importantes do esporte: o respeito.
Não foi um gesto isolado.
Ao longo da Copa, a seleção argentina colecionou discussões, provocações, entradas violentas, excesso de catimba e uma postura beligerante que contrastava com a enorme qualidade técnica de seus jogadores. Havia futebol suficiente para vencer qualquer adversário. Não havia necessidade de recorrer à intimidação quase permanente.
Afinal, o talento deveria engrandecer quem o possui. Nunca justificar comportamentos que empobrecem o espetáculo. As atitudes dos jogadores argentinos e de vários de seus torcedores foram vergonhosas.
Mas seria injusto transformar a Argentina na única vilã desta Copa. Ou seria? Ela é o reflexo mais evidente de uma competição comandada por uma Fifa vendida às bets e aos caprichos de Donald Trump.

O Mundial também expôs feridas ainda maiores
O planeta assistiu a episódios envolvendo a seleção do Irã que ultrapassaram os limites do esporte. Viu jogadores egípcios serem alvo de manifestações racistas. Assistiu a decisões de arbitragem que alimentaram desconfianças e colocaram em xeque a credibilidade de partidas decisivas, a maioria delas, inclusive, envolvendo a Argentina. E acompanhou tentativas de transformar o maior palco do futebol mundial em extensão de demonstrações de poder.
Nada disso deveria ocupar as manchetes de uma Copa do Mundo. Porque o futebol existe justamente para fazer o contrário.
Ele aproxima povos que vivem em conflito. Derruba fronteiras que a política insiste em levantar. Faz desconhecidos se abraçarem por causa de um gol. Ensina que é possível disputar com intensidade e, ao final, reconhecer o mérito do adversário.
Quando esse espírito desaparece, todos perdem. Talvez por isso a imagem mais poderosa da Copa não tenha sido o gol do título espanhol. Foi a vaia.
Donald Trump apareceu na cerimônia de encerramento acreditando, talvez, que dividiria os holofotes com os campeões. Recebeu das arquibancadas uma resposta tão sonora quanto simbólica. O futebol, vez ou outra, lembra aos poderosos que nenhum cargo é maior do que a vontade popular.
Da mesma forma, a Argentina descobriu que uma camisa pesada não autoriza atitudes pequenas. Os hermanos saíram com a imagem arranhada. Mas o que realmente deixou uma marca desprezível foi a incapacidade de reconhecer a grandeza do vencedor.
A Espanha levantou a taça e lavou a alma de uma parte expressiva do planeta. Outros deixaram o estádio carregando apenas o peso das próprias escolhas.
E talvez esta seja a maior lição da Copa de 2026. Os campeões serão lembrados por tudo o que construíram ao longo da competição e, principalmente, pelo que fizeram na decisão. Os demais acabarão lembrados pela forma como trataram os outros quando a derrota bateu à porta.
No fim, o futebol sempre devolve ao mundo aquilo que recebe de cada um de nós. Quando encontra respeito, multiplica grandeza. Quando encontra arrogância, devolve pequenez.
Foi exatamente isso que aconteceu nesta Copa.
No fim, palmas para os espanhóis!
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