Jornalismo
Empresas centenárias são destaque na administração pernambucana
Pernambuco tem várias organizações centenárias e uma que está prestes a completar 300 anos de fundação e segue operando a todo vapor
Por Wagner Oliveira01 SET. - 17H08
Jornalismo - Empresas centenárias são destaque na administração pernambucana (Foto: Divulgação )Uma administração comprometida e exitosa é a chave do sucesso para manter qualquer empresa ou instituição de pé. Mas não é qualquer pessoa ou grupo que consegue fazer um negócio virar referência, sobreviver às dificuldades e mudanças econômicas e chegar aos 100 anos ou mais de fundação em plena atividade. Em Pernambuco, algumas empresas desfrutam desse privilégio. Uma delas, na Zona da Mata Norte, celebra 297 anos de existência e está sob a administração da mesma família desde o início.
As empresas que conseguem chegar aos 100 anos em operação no Brasil são poucas. O último levantamento feito pela Associação Comercial de São Paulo, no ano de 2014, revelou que apenas 190 das mais de 14,5 milhões de companhias registradas no país até então eram centenárias. Crises econômicas, revoluções, mudanças na Constituição, troca de moedas e a pandemia estão entre os fatores que podem ter contribuído para o fechamento de algumas empresas.
Segundo o vice-presidente do Conselho Regional de Administração de Pernambuco (CRA-PE), Jefferson Henrique, 30% das empresas encerram suas atividades dois anos após terem sido abertas. “Quando chegam aos cinco anos de funcionamento, esse número aumenta ainda mais e passa a ser de 70%. Por isso, poucas empresas chegam aos 100 anos ou mais. Daí a importância da presença de um administrador de empresas para ajudar as organizações a performar mais”, destaca Jefferson.
Nascido no Recife, em 1917, a partir do trabalho de dois irmãos, o Grupo Cornélio Brennand (GCB) é considerado um dos maiores grupos econômicos do Nordeste. Ricardo Lacerda de Almeida Brennand e Antônio Luiz Brennand fundaram naquele ano, no bairro da Várzea, a Cerâmica São João. No início, a produção era apenas de tijolos e telhas. Com o passar dos anos, a empresa cresceu e passou a produzir cerâmica e açúcar. Em seguida, ampliou os negócios também para cimento, vidros, energia e o ramo imobiliário.
Foi na segunda geração familiar, sob a administração de Cornélio Coimbra de Almeida Brennand, que a empresa deu passos ainda mais longos, fortalecendo sua posição no mercado industrial. O Grupo Cornélio Brennand segue até os dias atuais buscando estar junto às novidades tecnológicas, mas sem perder o compromisso com a sustentabilidade. Além de Pernambuco, o grupo tem operações e escritórios na Paraíba, na Bahia, em São Paulo, em Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso.
Acionista do grupo, a empresária Carolina Brennand fala sobre a importância da administração familiar para o sucesso dos negócios. “Ela tem um papel fundamental na construção da visão de longo prazo que caracteriza o Grupo Cornélio Brennand. Um dos fatores que contribuem para essa longevidade é a preparação contínua das novas gerações para assumir responsabilidades de forma estruturada. Hoje, o grupo vivencia a transição da terceira para a quarta geração em posições estratégicas dos Conselhos de Administração e já promove a formação da quinta geração por meio de iniciativas voltadas ao desenvolvimento dos acionistas familiares”, destaca Carolina.
Ela fala ainda sobre o trabalho dos conselhos do GCB. “Os Conselhos de Administração e de Família têm papéis complementares e atuam para fortalecer a governança e a sustentabilidade no longo prazo. O Conselho de Administração contribui para a definição das diretrizes estratégicas dos negócios, acompanha o desempenho das empresas e apoia decisões relevantes relacionadas ao crescimento, aos investimentos, à gestão de riscos e à geração de valor. Já o Conselho de Família tem como missão preservar os valores, a cultura e o legado da família empresária, além de promover o alinhamento entre as diferentes gerações de acionistas”, explica.
As ações do grupo visam promover inclusão, gerar oportunidades e fortalecer as comunidades dos locais onde as empresas atuam. “O grupo investe em iniciativas próprias voltadas à educação, ao empreendedorismo e ao fortalecimento comunitário. Em 2025, o nosso programa Evoluir beneficiou cerca de 450 crianças e jovens com atividades de reforço escolar e desenvolvimento de habilidades socioemocionais, contribuindo para ampliar oportunidades e reduzir desigualdades na Várzea, em Goiana e em Tacaimbó. Outro destaque é o programa Territórios Regenerativos Mata da Várzea, que busca gerar renda, fortalecer a economia local e promover uma regeneração socioambiental alinhada às potencialidades do bairro da Várzea”, conta Carolina.
A empresária cita os pilares que fundamentam a trajetória centenária e as diretrizes do grupo. “Não existe uma fórmula única para alcançar mais de um século de história, mas alguns pilares têm sido fundamentais. Entre eles estão a solidez da governança corporativa, a capacidade de renovação ao longo das gerações, a visão de longo prazo dos acionistas e o compromisso permanente com a evolução dos negócios. Essa combinação permite ao grupo preservar sua essência ao mesmo tempo em que se adapta aos desafios e oportunidades de um ambiente em constante transformação”, finaliza.
Usina Petribú está em atividade desde 1729
Fazer uma empresa chegar saudável aos 100 anos já é uma tarefa considerada difícil. Imagina estar prestes a celebrar três séculos de fundação e seguir funcionando a todo vapor. Esse é o caso da Usina Petribú, localizada no município de Lagoa de Itaenga, na Zona da Mata pernambucana. Fundada no ano de 1729, a usina está hoje sob o comando da oitava geração familiar. Além do cuidado com a administração da empresa, a família Petribú também tem uma preocupação com as pessoas que fazem a usina.
A história da Usina Petribú começa no século 18 quando o senhor Cristóvão Cavalcanti de Albuquerque mudou-se de Igarassu, onde a família tinha um engenho de açúcar, para as margens do Capibaribe, com o objetivo de continuar a atividade ensinada pelos pais. O local para onde ele foi e ergueu um pequeno engenho feito de madeira, movido por força animal e fabricava açúcar bruto era chamado de potyraybu, originário do tupi-guarani. Por isso, o local ganhou o nome de Engenho Pitribú.
Com o passar dos anos, o nome passou a ser escrito como Petribú e se tornou tão forte que, em 1911, foi adotado como sobrenome da família. O coronel João Cavalcanti de Albuquerque passou a ser João Cavalcanti de Petribú. Foi sob a administração dele que o então pequeno engenho transformou-se em uma usina movida a vapor. De Engenho Petribú, a empresa passou a ser Usina Petribú e tem hoje, pela primeira vez, uma mulher na presidência, Daniela Petribú.
A diretora de RH e Marketing da Usina Petribu, Flávia Petribu, fala um pouco sobre a história da empresa. “Desde a fundação, a usina está sob a administração da nossa família. Atualmente, estamos na oitava geração e, agora, com Daniela como presidente. Para que o trabalho dê bons resultados e que a empresa viva por muitos anos precisa ter muita resiliência, persistência, trabalhar duro e com objetivos claros e definidos. Outro ponto importante é a definição de metas por área, acompanhamentos das mesmas e planos de ações para ajustar as velas quando necessário”, destaca Flávia.
A produção da Usina Petribú hoje se concentra em açúcar, álcool, água desmineralizada, gases, energia elétrica e eucaliptocultura. No entanto, além da visão empresarial, o grupo também desenvolve ações sociais. “Temos a escola Josepha de Petribú funcionando há mais de 120 anos e formando muitos alunos. A escola hoje tem mais de 250 crianças do pré-escolar ( a partir de 5 anos) ao oitavo ano com aulas de informática, educação física, música e no contraturno práticas agrícolas e industriais”, conta Flávia Petribú..
A diretora de RH e Marketing ressalta ainda que a usina dispõe de um clube social para os funcionários. “Eles podem usufruir de toda estrutura de lazer: piscinas, campo de futebol, parque infantil e jogos. Além disso, temos o projeto social Petribú Running, onde incentivamos sete atletas de elite nas competições de corrida de rua. Um investimento que ajuda a inspirar nossos funcionários a praticar atividade física, evitando possíveis doenças e cultivando a saúde”, finaliza Flávia.
Restaurante mais antigo do Brasil está no Recife

No coração do Centro do Recife, um restaurante inaugurado no século 19 mantém viva a tradição do lugar e segue em funcionamento contínuo no mesmo endereço desde a sua fundação, no ano de 1882. Considerado o mais antigo do ramo no Brasil, o Restaurante Leite passou por uma recente reforma onde ampliou o número de lugares para os clientes, mas não modificou o estilo sofisticado com o qual recebeu diversas personalidades e autoridades ao longo da sua trajetória.
O restaurante foi inaugurado pelo português Manoel Leite antes mesmo da Proclamação da República. Por muitos anos foi reduto da elite pernambucana formada por usineiros, políticos e artistas. As cadeiras do estabelecimento até hoje são de jacarandá, os talheres e bandejas, de prata, e os guardanapos, de algodão puro. Por muitos anos a administração do restaurante ficou com membros da família de Manoel Leite até o local ser adquirido pelo empresário Armênio Dias e pelos irmãos, na década de 1950. Desde então, o Leite está sendo administrado pela mesma família.
Atualmente, quem está à frente do restaurante é a empresária Daniela da Fonte, uma das filhas de seu Armênio. Ela assumiu a administração da empresa no ano de 2008 e fala sobre os desafios para manter o local em funcionamento. “São muitos os desafios. Uma casa com tanta história, inserida fortemente na memória afetiva dos clientes, requer que mudanças sejam pensadas com muita atenção. Precisamos nos modernizar e também pensar na segurança de nossos clientes e colaboradores. Além disso, temos que preservar tradição e memórias”, pontua.
A empresária fala também sobre os investimentos realizados no restaurante para continuar oferecendo um bom atendimento. “Fizemos uma reforma de ampliação que teve um investimento de R$ 3 milhões e durou cerca de três anos. Tudo foi feito de maneira a não impactar no funcionamento da casa. Fechamos por apenas 10 dias para finalizar os últimos ajustes. Anexamos o prédio ao lado, mudamos a entrada do restaurante que agora oferece mais conforto aos clientes, dispondo também de um novo bar, e também um primeiro andar com salão para até 70 pessoas, novos banheiros e cozinha”, detalha Daniela.
Localizado na Praça Joaquim Nabuco, no bairro de Santo Antônio, o Leite também é considerado ponto turístico de quem visita o Recife. Famoso pela sua culinária portuguesa clássica, o restaurante funciona apenas para o almoço e não abre aos sábados. Para provar os famosos pratos, os clientes podem ir ao local, de domingo a sexta-feira, no horário das 11h às 16h. Os destaques da casa são o bolinho de bacalhau, o bacalhau à Manoel Leite, o filé à Chateaubriand e a tradicional cartola como sobremesa.
Dentre as muitas curiosidades e relíquias guardadas no Restaurante Leite, uma delas é bem conhecida por alguns clientes mais assíduos. Aos 72 anos, Manoel José da Silva costuma chegar ao trabalho antes das seis da manhã. Ele é o funcionário mais antigo da casa, está no emprego há 52 anos. Chegou ao Leite com 18 anos. “Foi o meu primeiro emprego e estou até hoje. Comecei como serviços gerais e hoje trabalho como garde manger (termo francês usado para quem trabalha na cozinha, pode ser traduzido como guarda comida). Eu gosto muito do que faço”, ressaltou Manoel, que já está aposentado há 17 anos mas segue trabalhando.
Padaria Imperatriz faz sucesso há quase 130 anos

Uma padaria que tem título de nobreza no nome e que desperta memória afetiva em muitos pernambucanos segue em plena atividade no abandonado Centro do Recife. Com 129 anos de fundação, a Padaria Imperatriz é daqueles lugares que nunca devem desaparecer. Lá são vendidos os mais tradicionais e famosos retalhos de pizza, sanduíches caprichados, bolachas de todos os tipos e pães dos mais variados formatos e sabores. A padaria foi inaugurada em 1897. No ano de 1950 foi adquirida pela família que é proprietária atualmente e está sob a administração da quarta geração.
O estabelecimento recebeu esse nome porque fica na Rua Imperatriz Tereza Cristina, no bairro da Boa Vista. O endereço foi batizado assim em homenagem à esposa de Dom Pedro II após visita do casal ao Recife. Por muitos anos, a Rua da Imperatriz, como o endereço é mais conhecido, foi um lugar de grande movimentação de consumidores devido à quantidade e variedade de lojas que funcionavam no local. Atualmente, a rua exala abandono e decadência. Entre os poucos pontos comerciais ainda em funcionamento, o destaque é a Padaria Imperatriz.
Testemunha do que foi e do que se tornou a Rua da Imperatriz, a portuguesa Fátima Garcia, 67 anos, trabalha há mais de 30 na Padaria Imperatriz. Ela fala saudosa dos tempos áureos do Centro do Recife. “É triste ver a rua desse jeito, sem movimento. Antigamente, era tanta gente passando por aqui que quase a gente não conseguia enxergar o chão. Era um vai e vem muito grande de gente”, recordou a portuguesa, que tem a função de chapeira e é responsável por fazer sanduíches, cachorros-quente e servir a famosa pizza da casa.
O gerente Luiz Paulo Cabral, que ajuda na administração da padaria há 4 anos, fala um pouco sobre o trabalho para manter a tradição do estabelecimento. “São 129 anos de história. E é uma padaria com uma tradição muito grande. Sinto orgulho de trabalhar nesse lugar e saber que posso ajudar com minha experiência e manter essa tradição. Nossa pizza é conhecida nacionalmente e, por que não dizer, mundialmente. Temos clientes de fora do país e vêm aqui comer a pizza. Sem falar nos sanduíches e os pães doces em formatos de bichos, que fazem o maior sucesso”, destaca Luiz Paulo.
Depois de anos em declínio, um sopro de esperança surgiu para os comerciantes da Rua da Imperatriz. A Prefeitura do Recife afirmou que o local será reaberto para o tráfego de carros, assim como era na década de 1970. “Esperamos que essa medida de liberar a circulação de carros na rua traga mais movimento para a padaria e para os outros comerciantes. Enquanto isso, seguimos com o nosso atendimento humanizado e a excelência nos nossos produtos e todo cuidado para preservar a história da padaria”, ressalta Luiz Paulo.
Conselhos destacam importância da administração nos negócios
Por trás das organizações e negócios de sucesso, como no caso de empresas centenárias, existem pessoas preparadas e especialistas em tomar decisões acertadas e enfrentar problemas dos mais variados tipos. Uma figura primordial nesse processo é o administrador(a). “O médico está para a saúde assim como o administrador está para a gestão. Somos capacitados para isso desde as primeiras disciplinas da faculdade”, pondera Gilmar Camargo, vice-presidente do Conselho Federal de Administração (CFA) e vice-presidente da Zona Sul da Organização Latino Americana de Administração (OLA).
Ele também ressalta que a longevidade e saúde financeira de uma empresa passam, sobretudo, pelas mãos de quem está à frente da administração. “Uma boa gestão contribui diretamente para a competitividade empresarial e para a tomada de decisões relacionadas à produtividade, eficiência operacional, inovação e gestão de riscos. A administração oferece ferramentas e conhecimentos para que as organizações compreendam seus desafios, antecipem cenários e façam escolhas mais estratégicas”.
Para o vice-presidente do Conselho Regional de Administração de Pernambuco (CRA-PE), Jefferson Henrique, o papel do administrador também é o de estar atento a tudo, o tempo todo. “O papel do administrador passa pelos quatro pilares: planejar, organizar, dirigir e controlar. É preciso entender que não existe nada estático e nós precisamos estar sempre atualizados, atendendo, acompanhando e provisionando as tendências mercadológicas, as ameaças de mercado e temos ferramentas para isso.”, ressalta Jefferson.
Além de toda ajuda tecnológica para auxiliar no desempenho das suas funções, o administrador precisa de outros pontos. “É preciso saber como está a governança corporativa da empresa além de ter os conselhos consultivos e administrativos para dar suporte ao trabalho, formando assim uma visão mais ampliada da organização. Com isso, o padrão da gestão estará sendo mantido para que a empresa possa performar mais”, completa Jefferson.
Os representantes do CFA e do CRA-PE ressaltam também a importância das empresas longevas para a economia. “Empresas que atravessam gerações têm um papel importante, pois geram empregos, movimentam economias locais, influenciam comportamentos e contribuem para o desenvolvimento das regiões onde estão inseridas”, pontua Gilmar Camargo, do CFA. Já para Jefferson Henrique, do CRA-PE: “Essas empresas entendem que é necessário se conectar com tendências mercadológicas para que consigam superar as mudanças políticas, climáticas e todas sazonalidades que existem para quem empreende.”
Gilmar Camargo faz um alerta para empresários e administradores para que suas empresas sejam duradouras. “Precisa estar sempre atento às transformações do mercado e investir em aprendizagem contínua. Outro ponto fundamental é o desenvolvimento das pessoas. Quando elas compreendem seu impacto no negócio e sentem que fazem parte das conquistas da empresa, o senso de pertencimento aumenta. Por fim, o administrador precisa compreender que toda decisão de gestão gera impactos que vão além dos resultados financeiros. Empresas geram empregos, movimentam economias e contribuem para o desenvolvimento social”, ressalta.
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