Jornalismo
Comunidades criam soluções para enfrentar impactos da crise climática
Relatório do Greenpeace aponta que populações mais vulneráveis desenvolvem iniciativas de adaptação, mas ainda enfrentam dificuldades para acessar recursos e políticas públicas.
Por Redação31 JUL. - 15H39
Jornalismo - Comunidades criam soluções para enfrentar impactos da crise climática (Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)As comunidades mais afetadas pelos eventos extremos provocados pelas mudanças climáticas no Brasil também são as que encontram maiores obstáculos para acessar políticas públicas e recursos destinados à adaptação e prevenção. Apesar desse cenário, moradores de territórios vulneráveis têm desenvolvido iniciativas próprias para reduzir os impactos de enchentes, secas e ondas de calor, segundo o relatório "As soluções dos territórios: Adaptação Climática Baseada em Comunidades", elaborado pelo Greenpeace Brasil em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a Brisa Soluções Ambientais.
O estudo destaca que populações negras, indígenas, quilombolas, periféricas e rurais estão entre as mais expostas aos efeitos da crise climática. Para a organização, essas comunidades devem ocupar papel central na elaboração de políticas públicas de adaptação. O Greenpeace também defende que estratégias de justiça climática e combate ao racismo ambiental sejam incorporadas às ações governamentais.
De acordo com a coordenadora da Frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil, Leilane Reis, as desigualdades históricas no acesso à moradia, saneamento, saúde, mobilidade e infraestrutura fazem com que os impactos dos eventos extremos atinjam com maior intensidade os territórios mais vulneráveis. O relatório cita exemplos em diferentes regiões do país, como os alagamentos registrados nas comunidades da Ilha de Deus, Coque, Mustardinha e Vila Arraes, no Recife, além das enchentes que afetam populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas em Belém e na Ilha do Marajó, no Pará.
O documento também destaca situações enfrentadas em outras localidades. No Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, a temperatura dentro das moradias pode ficar até 8°C acima da média urbana, com sensação térmica superior a 60°C. Já no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, comunidades quilombolas convivem com longos períodos de estiagem, que comprometem plantações de milho, feijão e mandioca.
Entre as experiências bem-sucedidas apresentadas pelo relatório está a instalação de uma fossa séptica biodigestora na comunidade Vila do Carmo do Maruanum, na zona rural de Macapá. A tecnologia de baixo custo trata o esgoto por biodigestão e reduz a contaminação da água e do solo. No Rio de Janeiro, moradores da comunidade do Horto promovem ações de limpeza do Rio dos Macacos, plantio de árvores e educação ambiental, iniciativas que ajudaram a melhorar o saneamento e reduzir riscos de enchentes.
Em Pernambuco, a comunidade de Vila Arraes, no Recife, elaborou um plano comunitário de contingência, adaptação e mitigação dos efeitos das chuvas, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O projeto também incluiu capacitações realizadas pela Defesa Civil sobre protocolos de emergência durante enchentes e prevenção de acidentes, como choques elétricos em áreas alagadas.
O relatório aponta ainda que um dos principais desafios para ampliar essas iniciativas é o acesso ao financiamento. Segundo o Greenpeace, a maior parte dos recursos destinados à agenda climática é distribuída por meio de linhas de crédito e mecanismos burocráticos, dificultando a participação de organizações comunitárias. Para a entidade, ampliar a adaptação climática passa não apenas pelo aumento dos investimentos, mas também por uma distribuição mais direta dos recursos para fortalecer projetos que já apresentam resultados nos territórios.
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